16º Domingo do Tempo Comum – Ano A 2026
Ideia principal: Deus, paciente e cheio de misericórdia, não marginaliza o pecador, antes tudo faz para o integrar na comunidade do Reino. Pelo Espírito Santo, vem em auxílio da nossa fragilidade, guiando-nos no caminho da vida plena. Até ao momento final da opção definitiva - o tempo da ceifa – à possibilidade de se ser tocado pela graça. Sendo este o jeito de Deus, poderá o homem ter um comportamento desumano, mesmo pra os “maus”? A Palavra, hoje, convida-nos a olhar o mundo e os homens nesta “lógica” de Deus.
LEITURA I – Livro da Sabedoria 12,13.16-19
Não há Deus, além de Vós, […] Vós, o Senhor da força, julgais com bondade;
[…] Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo que o justo deve ser humano
e aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.
- O Livro da Sabedoria surge em meados do Sec. I a.C., já próximo da nossa era. O autor é um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado em Alexandria. Concetualmente helénico, faz o elogio da “sabedoria” judaica: convida os judeus, tão tentados pela idolatria e libertinagem dos helénicos, a redescobrirem a fé de seus pais; aos gregos, fá-los perceber o absurdo da idolatria e convida-os a aderir a Jahwéh… Aos judeus e aos gregos, só Jahwéh garante a verdadeira "sabedoria" e a felicidade plena.
- A Leitura é extraída da 3ª e última parte do Livro (Sab 10-11). Deus justo, exerce a sua justiça punindo os maus (personificados nos egípcios e nos cananeus), mas também sendo indulgente para com eles, dando-lhes a eles - e a todos – os meios e uma nova oportunidade, levando-os ao arrependimento após o pecado.
- Assim atua a Sabedoria na História do povo de Israel… Jahwéh é paciente porque quer ensinar os Seus filhos a serem humanos, a amar os outros, mesmo que cometam ações ignóbeis, continuam a ser pessoas e nenhuma pessoa é desprezível; por outro lado, não usa a Sua omnipotência para retaliar, porque não quer a morte do mau, antes quer dar-lhe a possibilidade de se arrepender, para que viva!
LEITURA II – Epístola de São aos Romanos 8, 26-27
O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações;
mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.
E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito,
sabe que Ele intercede pelos santos em conformidade com Deus.
- A salvação é dom de Deus que Jesus Cristo nos alcança (cf. Rom 5,12-8,39); atua em nós pelo Espírito que derrama sobre aqueles entram na comunidade do Reino. Quem são estes? Todos os que se decidem pela vida “segundo o Espírito”, uma opção que visa o restabelecimento da harmonia das origens, mas que exige daqueles que a fazem, não poucos padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.
- A força para viver “segundo o Espírito” - é bom que se sublinhe – vem de Deus, e é uma graça que devemos pedir. Mas saberíamos nós o que pedir? Será que sabemos discernir entre a entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”? O Espírito Santo, que Jesus derramou sobre nós, vem em auxílio da nossa fraqueza, conduzindo-nos pelo caminho da perfeita identificação com a vontade de Deus.
- Rezar é abrir a mente e o coração à luz de Deus para aceitar a Sua santa vontade. É o Espírito Santo quem nos faz ver na luz de Deus e penetrar nos Seus mistérios, e nos dá a capacidade para O seguir, intercedendo por nós com “gemidos inefáveis”, isto é, indiscritíveis, pois a mudança que se opera na vida de quem fez a opção do Reino é incompreensível para quem vive imbuído da sabedoria do mundo.
EVANGELHO - Mateus 13,24-43
[…] 'Queres que vamos arrancar o joio?' 'Não! - disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro'".
Jesus disse-lhes outra parábola: "O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda […].
Disse-lhes outra parábola: "O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento
que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado”.
- Mais três “parábolas do Reino: A primeira, a do trigo e do joio (vv 24-30), que só aparece em Mateus, o próprio Jesus a explica (vv 36-43), como aconteceu com a parábola do semeador. Mateus é um "pastor" que procura exortar, ensinar e fortalecer a fé dessa comunidade cristã a que o Evangelho se dirige. As outras duas parábolas são de tradição sinóptica: a do grão de mostarda e a do fermento que leveda a massa.
- A parábola do trigo e do joio tem vários personagens: o dono da casa, o inimigo, os servos… que somos nós. Apanhados de surpresa com o crescimento do joio, ficam desorientados… como nós, quando nos damos conta que o mal está presente na Igreja, no mundo, no nosso coração… A atitude serena do dono da casa, é um convite – não a que justifiquemos o mal – mas a percebermos que o bem e o mal não podem ser separados… até ao fim do mundo! É preciso ter confiança e ser pacientes, connosco e com os irmãos.
- As outras duas parábolas contêm a mesma mensagem, por isso são conhecidas por “gémeas”: a desproporção entre o início e o resultado final, é uma exortação ao otimismo. A confiança em que será concretizada a proposta do Reino, leva o cristão a cultivar a virtude da paciência, sendo otimista!
Rezar a Palavra
Ó Deus Todo-Poderoso, Paciente e Justo! Vivem-se tempos de violência e muito extremados… Com frequência dou comigo a julgar os outros, a olhá-los como inimigos. Hoje, a Palavra escutada, confronta-me com o vosso jeito, Senhor… se agis tanta paciência comigo e com os “maus”, poderei proceder de outro modo? Senhor, dai-me um coração grande… ensinai-me a amar, a ser paciente e otimista. Amem.
Cónego Armando Duarte
19 de julho de 2026