Santa Filomena em Portugal

Palavra Dominical - Partilha do Diretor Espiritual

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20º Domingo do Tempo Comum – Ano A 2026


Ideia principal: Neste domingo a Palavra fala-nos de quanto Deus se compraz com a salvação de cada mulher e de cada mulher. Respeita sempre as opções de cada um, mas não desiste… usa a Sua criatividade para, aos mais obstinados, propor novas oportunidades de integrarem a comunidade do Reino. Mateus narra-nos o que aconteceu quando Jesus entra numa região pagã e uma mulher cananeia acolhe a graça que os fariseus e os doutores da Lei recusaram.


LEITURA I – Profecia de Isaías, 56,1.6-7


[…] Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome
e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança,
hei de conduzi-los ao meu santo nome, hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração.


- O "Trito-Isaías" (capítulos 56-66 da Profecia de Isaías), uma coletânea de vários profetas da época pós-exílica (séculos VI e V a. C.), inicia com os versículos hoje lidos. Deus volta a reunir o Seu Povo no regresso do exílio, porém deseja que esta multidão se alargue: convida todos, todos, todos, a pertencerem ao Seu Povo, porque quer que todos se salvem. Esta bela profecia cumpre-se na universalidade da Igreja.

- A todos os não judeus é dada a oportunidade de integrarem o Povo eleito. Porém será necessário cumprir uma condição de ordem espiritual: só respeitando o direito e praticando a justiça (cf v.6) poderão satisfazer essa condição. Com esses o Senhor fará uma Aliança e os agregará ao Seu Povo através de uma ação cultual: “a minha casa será chamada casa de oração para todos os Povos” (v.7).

- Após o regresso do exílio, tempo marcado por tensões entre os hebreus regressam e aqueles que não chegaram a ser exilados; entre uns e outros e os estrangeiros que nos anos do exílio emigram para Jerusalém, Deus, através do profeta, ensina que não têm sentido os muros que separam as pessoas: qualquer que seja a tribo, raça, ou nação, a todos Deus dá a oportunidade de viverem com Seus filhos e de se salvar.


LEITURA II – Epístola aos Romanos 11, 13-15.29-32


É a vós, os gentios, que eu falo: […] Vós fostes outrora desobedientes a Deus
e agora alcançastes misericórdia, […]. Assim também eles desobedeceram agora, […]
para que, por sua vez, também eles alcancem agora misericórdia.
Efetivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.


- Paulo partilhou connosco, no passado domingo, um assunto que muito o entristecia: a rejeição por parte de Israel, o Povo de eleito de Deus, da salvação que Cristo nos alcançou (cf. Rom 9,1-5). Que lhe acontecerá, então? Ficará excluído da salvação? Paulo estaria convencido de que a única saída possível seria Deus rejeitar o Povo que rejeitou a salvação? A situação era insanável?

- De modo nenhum… Paulo considera que a questão não está encerrada. Mais: a desobediência dos judeus acabou mesmo por facilitar a entrada dos pagãos na comunidade do reino. Se os judeus, na sua maioria, tivessem aderido às propostas de Jesus e aceitado a salvação, nunca permitiriam – exclusivistas e preconceituosos como são – a entrada dos pagãos. “Deus escreve direito por linhas tortas”...

- São Paulo espera que a sua missão junto aos pagãos, a fim de os levar a Cristo, provoque ciúmes nos judeus… Os frutos do Espírito Santo, entre os gentios, são tantos que os judeus também deles hão de querer participar, e, então, também Israel reconhecerá Jesus como o Messias anunciado pelos profetas. Esse dia será uma verdadeira ressurreição, um regresso de muitos mortos – o povo judeu - à fé e à vida em Cristo.


EVANGELHO - Mateus 15,21-28


Uma mulher cananeia, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d'Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela replicou: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.


- Continuamos na secção da "instrução sobre o Reino" (cf. Mt 13,1-17,27) que começou com a pregação sobre o Reino, em parábolas. O episódio deste domingo é antecedido da rutura, primeiro com os fariseus, depois com os doutores da Lei. Jesus decide transpõe a fronteira para se encontrar com os pagãos. Não é que Jesus se sinta muito à vontade com eles, mas é preciso que entendam que Jesus também veio para eles.

- O encontro com a cananeia – cananeu, no AT é sinónimo de pagão… revela bem o retraimento de Jesus. Depois do silêncio, vem, a recusa explícita: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» A mulher, já nos havia ensinado o Kyrie, eleison… gritando: “Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim”. Isto é, antes de qualquer milagre a cananeia quer a piedade, a compaixão, o coração de Jesus.

- “Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos”… E a cananeia não fica ofendida, antes dá razão a Jesus: “É verdade, Senhor; mas…”. Esta mulher ensina-nos que a oração, no fundo, é dar razão ao Senhor. “É verdade, Senhor, não faço nada de bom… Importante mesmo é que Tu faças algo de bom para mim. Sou um cachorro… que importa, Senhor?... Importante mesmo é viver sob a Tua proteção.


Rezar a Palavra


Ó Deus dos caminhos que não são os nossos e dos pensamentos insondáveis! Afastai de mim esta pretensão de querer entender o vosso agir numa lógica humana. Vós “escreveis direito por linhas tortas”; do mal, sois capaz de fazer sempre acontecer o melhor bem; aquilo que parece pouco razoável faz parte do vosso projeto de salvação. Aprenda eu a confiar em Vós… Vós sois o Senhor da História. Protegei-me, Senhor! Amem.


Cónego Armando Duarte
16 de agosto de 2026

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