22º Domingo do Tempo Comum – Ano A 2026
Ideia principal: Seguir o Senhor é a resposta a um chamamento. O crente é livre na sua resposta. Jesus diz: “vem e segue-Me”; diz também: “se queres…” (cf. Mt 19,16 ss). O “jovem rico” não O seguiu; Jeremias, na 1ª Leitura deste Domingo, está cheio de hesitações… Qual a razão da recusa e das hesitações? As exigências do seguimento. Para seguir Jesus é «preciso renunciar a si mesmo e pegar na Cruz” (Evangelho). Esse é o caminho que Jesus vai percorrer. Quem quiser ser Seu discípulo sabe com aquilo que conta…
LEITURA I - Profecia de Jeremias, 20,7-9
Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; […] Em todo o tempo sou objeto de escárnio,
toda a gente se ri de mim; […] Então eu disse: «Não voltarei a falar n'Ele, […]. Mas havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia.
- O trecho faz parte de uma das “confissões de Jeremias”, dramáticas lamentações do profeta após a trágica morte do rei Josias. Jeremias é sensível ao sofrimento que lhe é causado pelo exercício da sua missão profética; os adversários consideram essas profecias um presságio de tudo o que de mal pode acontecer ao povo, incluindo a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor e o exílio na Babilónia (587 a.C.).
- Que ganhou o profeta com essa entrega ao ministério da profecia? Nada!!! Deus que o seduziu, abandonou-o sem dó, deixando-o entregue às zombarias dos adversários. O profeta de Anatot está dececionado... Decide, por isso, resistir à voz do sedutor: "não voltarei a falar nele, não falarei mais em seu nome" Porém, não consegue manter a sua decisão: "procurava contê-lo, mas não podia" (v. 9).
- Quando Deus chama, Ele escolhe quem quer, deixando aquele que é chamado, livre para responder. Uma resposta difícil, que constitui sempre um ato de confiança… tem por fundamento um grande amor, como uma paixão, um “fogo ardente” que abrasa o coração e comprime os ossos… Pelos homens, Jeremias abandonaria a missão. Porém, não foi o povo, mas Deus, quem o chamou… só a Deus deve responder.
LEITURA II – Epístola aos Romanos 12,1-2
Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos
como vítima santa, viva, agradável a Deus, […] transformai-vos, […] para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito.
- Depois de ter apresentado o desígnio salvífico de Deus em Jesus Cristo, sobretudo nos capítulos 5 a 8, São Paulo vai descer a considerações de carácter mais prático sobre o comportamento do crente: de Romanos 12 a 15,3, apresenta diretivas precisas e numerosas. A leitura deste Domingo introduz este longo desenvolvimento que visa definir o essencial da vida cristã.
- Viver para o cristão é, antes do mais, oferecer-se a Deus. Não se trata mais de oferecer o sacrifício de vítimas exteriores a si mesmo… Jesus entregou-Se totalmente ao Pai e o discípulo deve segui-l’O nessa entrega. É a novidade da nova Aliança relativamente a antiga Aliança. A partir de agora, aquilo que agrada a Deus, é o sacrifício do homem livre. É o culto “em espírito e verdade” (cf. Jo 4,23).
- Viver para o cristão, é cumprir a vontade de Deus. `Tal também era verdade para os judeus… porém, encontravam na Lei a expressão da vontade divina, era para eles suficiente cumprir o decálogo. O cristão é chamado a identificar-se com uma Pessoa: Cristo! Para que essa identificação aconteça de uma forma cada vez mais radical, no Batismo é ungido pelo Espírito Santo, para que se deixe conduzir por Ele.
EVANGELHO - Mateus 16,21-27
Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer da parte dos anciãos,
dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, […] começou a contestá-l'O […] «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!»
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
- O anúncio da Paixão constitui uma reviravolta decisiva na vida de Jesus. Qualquer dos sinóticos – Mateus também – referem três anúncios da Paixão; o de hoje (Mt 16,21), é o primeiro. Jesus sabe que caminha para a morte, o que não quer dizer que tal faça parte de um plano já determinado. Contudo, Jesus conhece as Escrituras que se cumprem n’Ele: Ele é o esposo, o pastor, mas também o servo. Para viver é preciso morrer… não é uma fatalidade imposta, mas uma aspiração interior, necessária para alcançar a glória!
- O diálogo com Pedro faz-nos voltar a Cesareia: à confissão de Pedro, a reação de Jesus (16,17-18), ao anúncio da Paixão e à admoestação de Jesus (16,22-23). A forma como Pedro reage após a bela profissão de fé, revela bem a sua fragilidade pessoal: não será o chefe da Igreja senão pela força de Deus.
- Se alguém quiser seguir-Me, pegue na sua cruz; quem quiser salvar a vida há de perdê-la; que aproveita ao homem ganhar o mundo, se perder a sua vida? (cf. 16,24-27). Um apelo que vem de Deus e se dirige ao coração de cada um, um apelo a um amor que vai até ao fim! Mas a renúncia, a entrega, a morte, não são um fim, mas uma condição para o encontro definitivo quando Jesus vier de novo na glória de Seu Pai (v.28).
Rezar a Palavra
Pai Santo, dou-Vos graças pelo lamento de Jeremias! Um grito como outros que hoje hão de chegar ao Céu, de tantos que experimentam o abandono, a solidão e o aparente fracasso da missão. Também já gritei, ó Pai! Porém, logo agarrei essa mão estendida e encontrei refúgio no vosso coração aberto… recuei como Jeremias, e prossegui na missão que me confiastes. Pai, bendito sejais por esse Amor que não falha! Amem.
Cónego Armando Duarte
30 de agosto de 2026