23º Domingo do Tempo Comum – Ano A 2026
Ideia principal: Deus quer a felicidade, a vida em plenitude para os todos nós, mas não falta quem queira ameaçar, subverter, distorcer a Sua vontade. Devemos, como Ezequiel, ser sentinelas na cidade dos homens e intervir, quer denunciando aquilo que contraria o plano de Deus, quer ajudando os nossos irmãos que erram. A correção fraterna é um caminho apontado pelo Evangelho, porém só resulta quando aquele que corrige tem no centro da sua existência o mandamento do amor.
LEITURA I -Profecia de Ezequiel 33,7-9
[…] “coloquei-te como sentinela na casa de Israel. […]
Sempre que Eu disser ao ímpio: 'Ímpio, hás de morrer',
e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá
por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte. […]”.
- Ezequiel é conhecido como "o profeta da esperança". Deportado para a Babilónia com a classe dirigente de Judá, em 597 a.C., quando Nabucodonosor conquistou Jerusalém, em 593 a.C. foi chamado, já no exílio, a ser Profeta, e lá exerceu a sua missão profética entre os exilados do seu povo, que se tornam muito mais numerosos em 586 a.C. quando o exército de Nabucodonosor arrasou Jerusalém e foram deportados mais judeus. O trecho que lemos situa-se entre a chegada destes novos deportados e o ano 570 a.C.. Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador - esse Deus que fez de Israel o Seu Povo - não os abandonou nem esqueceu.
- Porém, Ezequiel não é um pregador que fala para “a plateia”… é alguém que se dirige pessoalmente à consciência dos intervenientes com o intuito de levar cada um a assumir a sua responsabilidade pessoal. O profeta assume-se como uma “sentinela” de Deus, que tem o dever de avisar do bem e do mal, sob pena de se vir a tornar cúmplice da desgraça que possa recair sobre o povo. Como a Caim, Deus pede contas do sangue derramado… (cf. Gn 9,5-6), porém, não quer a morte do pecador, mas a sua conversão (Ez 18, 32).
LEITURA II – Epístola aos Romanos 13,8-10
Irmãos: Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros,
pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. […] A caridade é o pleno cumprimento da lei.
- Continuamos a ler a segunda parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 12,1-15,13), onde Paulo mostra como, na prática, devem os batizados viver com coerência a sua adesão a Cristo, e assim, como Deus quer, acederem à Salvação. Paulo não complica… Em reação à multiplicação de preceitos nos quais se perdiam até aqueles que punham a sua confiança na Lei, a vida cristã resume-se a um único mandamento: “Amarás”.
- O contexto do ensinamento tem a ver com o regresso dos judeus a Roma. Expulsos no consulado do imperador Cláudio (no ano 49), estão de regresso na altura em que Paulo escreve esta Carta (ano 57/58). Entretanto, os cristãos de origem pagã, habituaram-se a viver sem os cristãos de origem judia. Com o regresso destes recomeçam os conflitos. Paulo apela à reconciliação, exorta-os ao único necessário: Amar.
- Dum conselho moral muito prático “não devais a ninguém coisa alguma” (v.8), o apóstolo lança os alicerces da vida espiritual… Contudo, adianta, duma coisa somos sempre devedores: “o amor de uns para com os outros”. É fácil colocar a 2ª Leitura em linha com as outras: não é senão pelo amor que devemos estar atentos ao que se passa à nossa volta e intervir junto daqueles que andam desencaminhados.
EVANGELHO – Mateus 18,15-20
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender,
vai ter com ele e repreende-o a sós.[…] Mas se ele não lhes der ouvidos,
comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano. […]
Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa,
ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».
- Estamos no “Discurso Eclesial” - o capítulo 18 do Evangelho de Mateus - que reúne conselhos vários dirigidos aos discípulos para que possam testemunhar ao mundo o amor que os une. Hoje, Jesus dá indicações que visam recuperar quem errou; têm como pano de fundo o v. 14: “É vontade de meu Pai que não se perca um só destes pequeninos”. O objetivo é trazer à vida quem está a fazer escolhas de morte.
- A consciência da presença do Ressuscitado e a oração dirigida ao Pai, são essenciais à concórdia e à comunhão de propósitos e de sentimentos, sem os quais é sempre falível a interpretação daquilo que o Senhor “liga” e “desliga”. Por isso as tentativas de correção e reconciliação devem fazer-se em ambiente de oração, de forma a que atraiam o apoio e a assistência de Jesus e atuemos segundo o Seu jeito.
- Se a tentativa de correção ou promoção fraterna esbarrar com a má vontade daquele que prevaricou, se este nem à Igreja der ouvidos, “considera-o como um pagão ou um publicano” (v.17). Quer isto dizer que devemos desistir dele ou pô-lo fora? Mateus era publicano e sabe como Jesus o tratou a ele, aos publicanos, aos pecadores! Agir como Jesus, sempre! Eis a força explosiva e a novidade do Evangelho…
Rezar a Palavra
Bendito sejais, Pai Santo, que me chamais a ser santo como Vós sois Santo. Eu Vos louvo e bendigo, ó Deus glorioso, pelos irmãos que tendes colocado no meu caminho como sentinelas, para vigiar, guiar e corrigir. Deus justo e bom, não permitais que seja complacente com aqueles que erram, pois me tornaria cúmplice do mal que devo impedir. Que o Espírito Santo me capacite para discernir e atuar. Amem.
Cónego Armando Duarte
6 de setembro de 2026