2026-03-01
2º Domingo da Quaresma – Ano A 2026
Ideia principal: Deus conta connosco para sermos, no mundo, arautos da Boa Notícia; ainda que tal implique riscos, não podemos calar uma proposta de vida feliz para sempre. Em Abraão temos um “modelo”: a sua obediência é total e a sua confiança é inabalável. É também uma confiança absoluta que Jesus pede aos discípulos no caminho de Jerusalém… agora a cruz, depois a ressurreição.
LEITURA I – Génesis 12, 1-4
O Senhor disse a Abrão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar […] Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
- A 1ª leitura é extraída das "tradições patriarcais", um bloco que vai dos caps 12 a 36 do Génesis. Os clãs referenciados, nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob, têm uma aspiração comum: possuir uma terra fértil, bem irrigada, e uma família numerosa. Jahwéh, atento a esta aspiração, chama Abraão e propõe uma Aliança, que tem subjacente uma exigência: lançar-se no desconhecido, fiado apenas na Palavra de Deus.
- No domingo passado, ouvimos a narração do pecado original… Eis a resposta de Deus ao pecado: não desiste do que havia feito, antes recomeça tudo… chama Abraão, elege um servo fiel, para dar início a uma nova história de amor e assim abençoar a Humanidade toda. Na vocação de Abraão – “o pai ama” ou o “pai é exaltado” – cada crente é convidado a ler a história do árduo caminho espiritual que deve percorrer.
- Cabe a Deus a iniciativa e proferir uma palavra: “Deus disse”... Como se encontrou Deus com Abraão? Através de um sonho, como aconteceu com Jacob ou com José? Por gestos, aos quais Abraão deu um sentido religioso? Por um apelo interior? Ninguém sabe. Sabemos, e isso nos basta: a história da fé começou com uma palavra dita por Deus. Abraão “acreditou e isso foi-lhe tido em conta de justiça” (Rm 4,3).
LEITURA II – 2 Timóteo 1,8b-10
Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. […] Esta graça, […]
manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte
e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho.
- Paulo encontrou Timóteo em Listra, no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, era ainda muito novo quando seguiu Paulo. Pelas referências que este faz ao seu jovem discípulo, era forte a ligação entre ambos. A 2ª Carta a Timóteo terá sido escrita em Roma, pouco antes do martírio de Paulo (ano 67). O Apóstolo exorta o seu discípulo a sofrer pelo Evangelho.
- Os vv 9-10 constituem uma das belas sínteses paulinas sobre o projeto salvífico de Deus. A salvação tem como ponto de partida um chamamento santo; santo, por partir de Deus, e porque nos conduz a Deus. Este desígnio de Deus, manifestou-se em Jesus Cristo, que destruiu a morte e o pecado e nos alcançou a vida plena. Timóteo, apesar das dificuldades, assumiu por inteiro a missão do anúncio da Salvação.
- O mesmo Deus que chamou Abraão (1ª Leitura) e Timóteo, também nos chama a nós, por pura graça, a dar testemunho do Evangelho e a participar da vida plena que Jesus nos alcançou, vencendo o pecado e a morte. Contra a continua tentação de querermos permanecer “aqui”, no provisório, no preliminar, no penúltimo, como Pedro, Tiago e João (Evangelho), Paulo quer que nos comprometamos na sua corrida…
EVANGELHO – Mateus 17,1-9
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles […]. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! […]»
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse: «Levantai-vos e não temais».
- O mistério de Cristo tem, pode-se dizer, duas faces, uma luminosa e outra obscura: cruz e glória, kenosis e exaltação, debilidade e poder, fracasso e triunfo. A pedagogia de Jesus para com os discípulos consiste em evitar que deem passos em falso ou queimem etapas… A glória através da cruz, a luz da Páscoa através das trevas de Sexta-Feira Santa, a exaltação através do fracasso e da humilhação.
– É necessário acolher o mistério de Cristo na sua totalidade desconcertante. Não nos é permitido escolher, privilegiar o aspeto que nos é mais simpático, em detrimento daquilo que é mais “misterioso”… O discípulo sabe reconhecer, tanto no “Transfigurado”, como no “Desfigurado”, o Filho de Deus que nos desafia a percorrer, com total confiança, o caminho que Ele percorreu, mesmo os “passos” mais difíceis.
– O ressoar daquela “voz” constitui o elemento essencial do relato: “Este é o Meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Tal como no Batismo, também na Transfiguração/ Confirmação, aquela “voz” expressa a investidura que vem do alto, o reconhecimento por parte do Pai. O discípulo não é o homem das visões, mas da escuta. Escuta para obedecer, comprometendo-se!
Rezar a Palavra
Ó Deus, que chamastes Abraão! E ele deixou a sua terra, os seus horizontes as suas referências, a sua pátria, os seus usos, leis e costumes, a sua família… Abraão, obediente, vai, parte, põe-se a caminho. À Palavra que proferistes, Senhor, respondeu com confiança total o vosso eleito. Assim começou esta história de amor e dela quero ser protagonista! Seja eu capaz, ó Deus, de responder como Abraão. Amem.
Cónego Armando Duarte
1 de Março de 2026